sábado, 9 de agosto de 2008

Morrendo de tédio I: A cicuta.



Mate-me as dez em ponto. Dê-me duas doses de cicuta. Penso que devo morrer Logo que entornar a primeira dose. A segunda é para minha garantia Ou para alguém que queira me acompanhar. Por favor, logo que debruçar meus olhos E minha alma sob o tempo eterno, Deite-me na rua, Em meio ao trânsito Para que saibam quando passarem Pelo meu corpo frio e estendido Que jaz um homem infeliz pelo seu tempo Se ninguém parar diante disso Empurre-me para de baixo de um caminhão Meu corpo dilacerado, com certeza, chamará mais atenção. Afinal a desgraça e os destroços Sempre param os homens. Quando for mutilado este corpo que ainda fala quente, Estarei olhando da calçada As figuras e as vozes de homens, mulheres e criancinha: “– Tinha de ser assim para morrer?” E eu rirei de seus olhos piedosos: “– Eu já estava morto”.

2 comentários: